7 de Dezembro de 1993 | Algo de novo


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Dia 7 de Dezembro foi dia de manifestação nacional. Couto dos Santos havia-se demitido, mas já não era só as propinas, era um quadro de reivindicações muito mais vastas e que também englobava o ensino secundário.
Eu estudava na Escola Secundária de S. João do Estoril, e às 7.00h da manhã o liceu já estava fechado. Não foram precisos nem correntes nem cadeados, com o nascer da luz do dia éramos já 50 alunos cá fora. Um ou outro foi entrando, não mais que 20.
Às 8.30h, hora do início das aulas, os mais de 500 estudantes alinhavam à porta da escola e sentíamos uma incrível liberdade. Às 9.00h o professor serôdio que no Conselho Directivo assegurava o bom-nome da escola e o decoro, censurando as actividades dos estudantes (sobretudo da AE) e que proibia o beijo dentro da escola entrava sobre um coro de vozes que "O Loureiro já não manda aqui". Ameaça os estudantes, mas nada faz perante a multidão. Chega a polícia de choque, e nós não parámos de cantar.
Juntamo-nos para decidir o que fazer, a ida para Lisboa ainda era daqui a umas horas e havia a notícia de escolas que fechavam e estradas cortadas, decidimos partir. A polícia não sabia para onde íamos, nós sabíamos que íamos dar uma grande volta para chegarmos à Marginal. Às 10.30h a Marginal estava cortada no sentido Lisboa-Cascais, os estudantes desafiavam a polícia mas sobretudo o poder. Seguimos dali para a estação de comboios e lá fomos encher as carruagens. No percurso não houve nenhuma hostilidade entre as pessoas que usualmente utilizavam aquele meio de transporte e que naquele dia se viam englobadas no meio de um protesto apinhado, algumas cantavam connosco.
Saímos em Santos e lá fomos Av. D. Carlos acima. O cenário que se me deparou foi de arrepiar. Eram milhares e milhares de pessoas, um mar de gente. Confesso que nesse dia pensei que nada seria como antes e, com alguma ingenuidade, pensei que Cavaco se tivesse honestidade política se demitiria. Não se demitiu.

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Quem somos?

    Fazemos parte de uma geração que nasceu politicamente com Cavaco Silva como Primeiro-Ministro. Organizámos e participámos em manifestações, vigílias e reuniões por um mundo que sabíamos não dever ser dominado por um gestor iluminado que com discursos de rigor escondia o desenhar da crise em que continuamos a viver. Porque temos memória, não esquecemos Cavaco, tal como não esquecemos os seus ministros. Não esquecemos as violentas cargas polícias sofridas, pelas escadarias da Assembleia da República e dentro das Universidades. Não esquecemos o spot da TSF que, da ponte 25 de Abril, lançava o grito para que "gajos ricos, gajos pobres"; se juntassem. Não esquecemos os políticos que Cavaco formou e que o continuaram; Durão Barroso, Santana Lopes, Valentim Loureiro, Isaltino Morais ou Alberto João Jardim. Não esquecemos em Cavaco, o contínuo desrespeito por tudo o que era cultura, arte ou memória. E também não esquecemos aquele dia em que Cavaco perdeu e que nos deixou reentrarmo-nos em torno das nossas vidas. Fomos desobedientes naquela altura e agora torna a ser necessário voltar a sê-lo!

    Ana
    Carlos Guedes [G.]
    Filipe Gil
    João Miguel Almeida
    João Paulo Saraiva
    Nuno Espadinha
    Tiago Mota Saraiva
    Z. N.

Centro de Estudos do Cavaquismo

    Quem faz uma procura na Internet sobre os anos em que este país viveu sob a égide de Cavaco, encontra muito pouca informação, quase nada. O Cavaco Fora de Belém é um blogue que pretende reavivar as memórias do que foi esse período negro da história de Portugal. Para tal propomo-nos recolher relatos, documentos, arquivos, imagens ou videos em formato digital, que nos permitam construir a história desse período e colocá-la online. Os vossos contributos, vindo directamente das caves e dos sotãos da história, podem ser enviados para este email: cavacoforabelem (@) gmail | com

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